domingo, 7 de dezembro de 2014

dez encontros

Quando aparecia bem na noite incerta
E me ajudava intensamente a escolher o tom
Pra usar minhas palavras sempre tão sinceras
Poderia ser somente minha imaginação
O dia vem girando na atmosfera
Gelada e inconsequente com algo de bom
Mas parece veio a chuva e derrubou um sonho
E onde caiu nasceu a árvore de mel-limão

Te contar, que parecem cem anos
Ou meses que uma tempestade me cobriu
Corri pra procurar abrigo e nada mais
Encontrei o sol, dobrando a esquina

Quando eu despedia vendo os olhos dela
Se afastando pra tão longe como um avião
Me sentia como filme norte americano
Saindo de sessão
Aprendi a descobrir o meu próprio caminho
Assustado com os dias que eu deixei passar
Me contento com esse falso brilho da cidade
Esperando meu momento de nunca voltar

Te contar, que parecem cem anos
Ou meses que uma tempestade me cobriu
Corri pra procurar abrigo e nada mais
Encontrei o sol, dobrando a esquina

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

eu não poderia crer em um deus que não soubesse dançar

minha alma não é água com açúcar, é preciso gritar
rasgar a pele e consequentemente a roupa
e que a voz rouca não impeça seu ouvido de sangrar
porque sendo visceral quieta o monstro dentro de mim
pra que ele não posso depender unicamente de beijos errantes
de moças de saias e seios arfantes
nem meu corpo consegue entender mais os olhares
e nas mesas dos bares me despeço de algo intrigante
o que a musica faz comigo nenhum sexo faz com você
sou ultrajante e profano, blasfemo com medo e coragem
e a paisagem vai mudando com o tempo
mas nenhuma conversa preenche o vazio dos meus ouvidos
meu coração esta cheio e pronto pra atacar
estou pronto pra chorar e não pensar em mim
me preparei pra acertar, me preparei pra perder
e não há nada que valha tirar meus pés do chão
de razão meus sonhos estão cheios
minha missão passeia dependendo do mês
o que não sei se clareia na dança
e o que sei ficou pra trás outra vez

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Porquê não matei Valdir

Era um sábado, 13 de Abril de 1996. Esperava Valdir com uma arma no bolso. A arma fazia volume e eu sentia o peso de uma tonelada no meu bolso me puxando pra baixo.

Valdir era tudo que eu não era. Ele era especial. Eu não o conhecia bem, mas ele morava no meu bairro e sempre ouvia falar. Enquanto todos o ouviam e falam sobre ele eu quase tinha que gritar pra voz sair. Enquanto os times disputavam sua presença na pelada eu era o último a ser escolhido. Ele não tirava notas altas no colégio mas não era reprovado como eu. Fazia uns poemas, alguns raps, parecia ter um futuro na vida enquanto eu não sabia o nome do meu pai. Valdir era bom em quase tudo, e eu era um ninguém. Senti como se isso fosse culpa dele, como se ele tivesse me roubado a sorte ao nascer. Algum evento simbólico, macumba, mal olhado. Só não era possível que o sol brilhasse para ele e em cima de mim chovesse granizo o tempo inteiro.

Mas o golpe de misericórdia foi quando ouvi atrás do colégio as pessoas comentando:
- Na festa semana passada cara, o Valdir pegou a Thereza de jeito atrás dos prédios do conjunto. Com certeza comeu.

Thereza era minha melhor amiga, a menina mais linda do bairro, amiga da minha mãe, a pessoa com quem não precisa ser algo além de mim. Nutri uma paixão por ela desde os 12. Mas enquanto nunca tive coragem, Valdir me tomou a única esperança de vida, meu raio de sol em meio a chuva triste. A dor aumentou quando percebi que há algumas semanas Thereza andava distante, e eu estive ocupado demais remoendo meu ódio pra perceber.

Minha garganta fez um nó tão grande que parei de respirar. E na falta de oxigenação do cérebro subi a favela em busca de uma arma para acabar com meus problemas. As lágrimas melaram meu chinelo sujo da terra das ruas mal asfaltadas. Quase morri três vezes atropelado por motos e não vi como eram lindas as pipas no céu de final de tarde. Consegui a arma e desci com a coragem que nunca senti na vida para fazer algo bom. O melhor que eu podia fazer por mim era atirar.

Estava com tanto ódio transformado em energia e coragem que nem precisei de cocaína. Meu próprio sangue me drogava. Não queria só matar pra acabar com meu problema de uma vez, era preciso desabafar, jogar toda culpa em único motivo e liquidá-lo pra que eu pudesse começar do zero, me declarar pra Thereza, aprender uma profissão, procurar meu pai pra fazer o mesmo.

Procurar meu pai pra fazer o mesmo.

Foi quando a arma estava apontada pra cabeça de Valdir estirado no chão que essas palavras ressoaram na minha cabeça como um golpe e a droga da ira passou. Sentei no chão com os braços apoiados na perna e enxerguei que se fosse pra fazer o mesmo que meu pai essa arma deveria estar apontada para minha cabeça. Apontei por um tempo pra me certificar que eu era eu o problema ser extinto. Valdir não era o meu pai. Era um pobre homem com sorte na vida, que não tinha culpa da minha desgraça. Nem eu podia ser.

Levantei Valdir, peguei minhas coisas em casa e fui recomeçar em outro lugar, em busca de outra sorte pra chamar de minha.

terça-feira, 22 de julho de 2014

fomidão

esse sono
consome meu corpo
me joga pra baixo
feito peso morto

essa fome
atrapalha meu nome
me deixa pensando
feito padre infame

essa rua
continua na lua
me deixa suspenso
feito pingo de chuva

esse sonho
dorme acordado
não abre meu olho
mas me aquece o sangue

esse frio
me treme o corpo
me mantém vivo
em busca de sol

esse sorriso
me torna amigo
do que eu preciso
eu vivo em mol

esse poema
precisa de metrica
as vezes não rima
com o que eu faço da vida

esse fim
que não chega nunca
as vezes machuca
mas eu prefiro assim

esse você
que lê o que eu digo
espero sorrindo
que esteja feliz

quinta-feira, 26 de junho de 2014

certa noite acordei de sonhos intranquilos

e sinceramente não sei como vim parar aqui. foi um pesadelo eu disse pra mim mesmo, mas a janela da sala estava quebrada por um granizo que esperava pacientemente no chão pelo seu fim. me sentei largado no sofá me julgando tão sem reação quanto aquele pedaço de gelo que se formou na natureza com o intuito de me foder. mas em algum lugar estava minha capacidade de me reinventar. eu só precisava procurar.

procurei pelo quarto, nas roupas, nos discos, embaixo da cama, na poeira de semanas. no corredor, na luz acessa, nas drogas, na sala, na televisão, na fé. no banheiro, no canto no chuveiro, lavando o rosto encarando o espelho, no meu cabelo. na cozinha, na comida, no sexo. cada hora eu era um, todo minuto eu tinha medo.

e engolindo seco eu desci minha rua, procurando nas placas, nos postes, nos fios de alta tensão, com o nariz empinado mirando o céu. procurei no meio fio, nos bueiros e seguindo os ratos, mirando o chão. ambos doeram de maneira diferente.

então segui em frente e entrei no ônibus. eu era o esquisito que escrevia nervoso em um caderno velho, com uma letra garrancho. e que vez ou outra olhava pelo vidro sujo a sujeira da rua em pane. em conflito fundo. sem ler os letreiros que identificavam onde eu estava e as marcas das lojas que identificavam quem eu sou.

desci no centro da cidade, bem no coração onde as pessoas passam e a mantém viva, pulsando, cinza, alegre, com a veia entupida de carros e gente querendo morrer. eu queria renascer ali, mas tudo já parecia inventado de alguma maneira. mas e o artista que pinta no meio da calçada velha? e o poeta que faz musica com seu jazz no meio do caos? as buzinas e as crianças chorando entram na dança do meu sofrimento cotidiano e contemporâneo de herança moderna provocado pela bossa nova.

certa noite acordei e parei em uma praça pra escrever, enquanto todos planejavam comprar um carro e aposentar mais cedo, eu queria dormir até mais tarde e não ser tão louco assim. me distraí no que estava procurando. nem todo texto tem que ter um fim.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

eu vou voltar a falar de amor

nossos corpos se entrelaçam
em encaixe perfeito
nossos olhos se encaram
como se um do outro fossem feito

quando a vida corre mais do que meus pés
e os dias ficam cheios e vazios de você
não há nada que me prenda a esse inferno
eu queria aprender a não correr

e te manter por mais um tempo na coberta
e desligar os telefones e as tevês
cantar ao mundo o que ninguém mais pode ver

posso ser um míope quase cego
segurando minhas lembranças num balão
desafinado eu te entrego minha canção

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

desastre natural

a vida me deixou amargo, como o limão que eu tomei.
sem açucar, sem afeto, com amor tudo é mais caro
ganhar, perder, sorrir, chorar
chegar mais perto, ir mais longe.

a vida me deixou calado, como cinema mudo
tentei explicar o barulho, mas ninguém me ouviu.
como reação em fiquei surdo
sem perceber, tanto pra dentro como pra fora

como um fanático politico
como alguém que vende seu tempo
eu perdi o meu barato
atravessando vias, tentando conter meu corpo em chamas

espalhei minha alma na atmosfera tentando abraçar o mundo de uma vez
e viver como quem puxa o gatilho
quero ter um filho com o nome do meu avó
e o sorriso do meu pai

e a força da mãe, que vai suportar o tanto que carrego do meu pequeno universo
constituído de tudo que vivo como se vivesse todos os sonhos de uma vez
nos três somos o cosmo inteiro dessa vez
vamos brincar amanhã quando parar de chover